Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, o mercado brasileiro combina incerteza política, atividade em desaceleração e condições de crédito mais restritivas. No exterior, inflação e emprego mais fracos nos Estados Unidos reduziram as apostas em nova alta imediata de juros, embora o petróleo acima de US$ 100 por barril e os juros soberanos em máximas de décadas continuem impondo cautela.
Eleição presidencial chega ao primeiro turno com disputa apertada
O primeiro turno ocorre neste domingo, e as principais pesquisas reforçam a perspectiva de uma disputa equilibrada entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em eventual segundo turno. Na Quaest, ambos aparecem com 42%. A AtlasIntel mostra Flávio com 47,7% e Lula com 47,6%. No Datafolha, Lula tem 48%, ante 45% de Flávio.
Para o primeiro turno, o Datafolha atribui a Lula 45% dos votos válidos, abaixo dos 50% necessários para vencer já neste domingo. O conjunto das pesquisas indica, portanto, elevada probabilidade de segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Indústria perde força e reforça desaceleração
A produção industrial recuou 0,6% em agosto frente a julho, resultado significativamente inferior à expectativa de alta de 0,1%. No trimestre móvel encerrado em agosto, a queda chegou a 2,0%. A retração foi disseminada entre as quatro grandes categorias econômicas e a maior parte dos setores.
Os bens de capital seguem fracos, refletindo juros elevados, endividamento das empresas e maior presença de importados. Já os bens intermediários, responsáveis por cerca de 60% da indústria, recuaram pelo quarto mês consecutivo. As projeções permanecem em crescimento de 1,7% para o PIB de 2026 e de 1,0% para 2027.
Emprego segue robusto, mas começa a moderar
A taxa de desemprego permaneceu em 5,3% no trimestre móvel encerrado em agosto, enquanto o rendimento médio real voltou a crescer no terceiro trimestre. O Caged registrou criação líquida de 165,8 mil vagas formais, acima das 106,9 mil esperadas.
A surpresa, porém, veio principalmente da queda de 1,8% nos desligamentos, enquanto as admissões recuaram 0,3%. A leitura é de arrefecimento gradual, e não contração. A projeção é de criação líquida de aproximadamente 900 mil empregos formais em 2026 e desemprego dessazonalizado de 5,6% ao fim do ano.
Dívida pública alcança maior nível desde 2021
O Governo Central registrou déficit primário de R$ 13,6 bilhões em agosto, melhor que o esperado, apoiado por receitas ligadas ao petróleo e execução mais fraca das despesas discricionárias. O setor público consolidado apresentou déficit de R$ 10,0 bilhões, também melhor que em agosto de 2025.
Ainda assim, a dívida bruta avançou para 82,9% do PIB, maior nível desde março de 2021. A projeção para o Governo Central em 2026 é de déficit de R$ 40,4 bilhões, ou 0,3% do PIB. Excluídas as despesas fora da meta, haveria superávit de R$ 19,5 bilhões. A dívida bruta deve terminar o ano em 83,6% do PIB.
Inadimplência recorde aumenta pressão sobre o consumo
O saldo de crédito do Sistema Financeiro Nacional cresceu 0,5% em agosto, para R$ 7,4 trilhões, impulsionado pelas famílias, enquanto o saldo das empresas recuou 0,1%. A inadimplência total atingiu recorde de 5,04% e, entre pessoas físicas, chegou a 6,0%, também máxima histórica.
A taxa média das novas concessões alcançou 32,3% ao ano e o spread bancário subiu para 21,2 pontos percentuais. A combinação de inadimplência, juros e spreads elevados tende a limitar o consumo e a atividade nos próximos meses.
Cenário Internacional
Juros soberanos renovam máximas de décadas
Os juros dos títulos públicos continuam subindo nas principais economias. Nos Estados Unidos, o Treasury de dez anos superou 5,3%, maior nível desde 2002, e o de 30 anos também atingiu o maior patamar desde aquele ano. No Japão, a taxa de dez anos alcançou a maior marca em três décadas; na Alemanha, a maior desde 2008; e, no Reino Unido, o título de 30 anos superou 6%, nível não visto desde 1998.
Petróleo elevado, endividamento público e demanda por capital associada aos investimentos em inteligência artificial pressionam as taxas. No terceiro trimestre, os juros americanos registraram a maior alta trimestral deste século.
Dados mais fracos reduzem chance de alta do Fed em outubro
O PCE americano subiu 0,3% em agosto, abaixo da expectativa de 0,4%, enquanto o núcleo avançou 0,2%, ante projeção de 0,3%. Em 12 meses, os índices ficaram em 3,4% e 3,0%, ainda acima da meta de 2%.
O payroll registrou criação de apenas 29 mil vagas em setembro, ante 90 mil esperadas. O desemprego subiu para 4,2% e o salário médio por hora avançou 3,0% em 12 meses, menor ritmo desde 2021. A probabilidade de nova alta de juros em outubro, que era de cerca de 69% no início da semana, caiu para 18%. Para dezembro, a chance de novo aperto permanece elevada.
Petróleo segue acima de US$ 100
O Brent oscilou fortemente e encerra a semana em torno de US$ 102 por barril. A rejeição de Donald Trump à proposta iraniana levou a cotação para perto de US$ 108. O plano previa reabertura do Estreito de Ormuz em até sete dias em troca do fim do bloqueio naval americano e da suspensão de sanções.
A recuperação das exportações do Golfo Pérsico devolveu parte da alta, mas notícias sobre o envio de um terceiro porta-aviões americano ao Oriente Médio voltaram a pressionar as cotações. A suspensão das exportações de combustíveis por refinarias chinesas também contribuiu. Sem avanço diplomático, o petróleo segue como importante vetor de inflação global.
Estados Unidos e China avançam em trégua comercial
Estados Unidos e China divulgaram listas de produtos que poderão receber redução de tarifas. Cada país indicou cerca de US$ 30 bilhões em bens considerados não sensíveis, totalizando US$ 60 bilhões em comércio bilateral.
A lista chinesa inclui milho, trigo, carnes congeladas, madeira, cosméticos e dispositivos médicos americanos. A lista dos Estados Unidos contempla pequenos eletrodomésticos, utensílios domésticos, brinquedos e decorações natalinas chinesas. Pequim também confirmou a prorrogação da trégua comercial por dois meses, até 10 de janeiro.
China volta à expansão, mas recuperação é modesta
O PMI industrial chinês subiu de 49,8 para 50,1 pontos em setembro, retornando à zona de expansão. A produção avançou para 51,7 pontos, maior nível do ano. O PMI não industrial passou de 49,0 para 50,2 pontos, acima da expectativa de 49,3.
Os novos pedidos, porém, ficaram praticamente estáveis em 50,5 pontos, e a demanda doméstica segue fraca. O PBoC reduziu em 0,25 ponto percentual a taxa de uma linha de crédito destinada aos bancos estatais de fomento, ampliou financiamentos setoriais e o governo criou subsídios aos juros imobiliários.
Bolsa
Ibovespa sobe forte na última semana antes da eleição
O Ibovespa encerrou a semana em alta de 4,7% em reais e de 4,2% em dólares, aos 192.115 pontos. O real recuou 0,6% frente ao dólar. No exterior, o S&P 500 caiu 0,3%, o Nasdaq avançou 0,7% e o Dow Jones recuou 1,3%.
O Treasury de dez anos chegou a 5,34%, maior nível desde 2002, mas dados mais fracos de inflação e emprego aliviaram a pressão na reta final. A probabilidade de alta dos juros americanos em outubro caiu de aproximadamente 70% para perto de 20%. O Brent avançou 4,1% na semana, para perto de US$ 103 por barril.
No ambiente corporativo, a Micron avançou 3% na quinta-feira após guidance acima do esperado, enquanto a Nvidia anunciou recompra adicional de US$ 150 bilhões. Na direção oposta, a Nike chegou a cair cerca de 10% no pré-mercado de sexta-feira, ao menor nível desde 2013, após projetar queda de receita no ano fiscal.
Pesquisas eleitorais e payroll impulsionam ativos brasileiros
Os ativos locais permaneceram voláteis na última semana antes do primeiro turno, reagindo às novas pesquisas e aos ajustes de posição dos investidores. Na sexta-feira, o payroll mais fraco nos Estados Unidos melhorou o apetite por risco.
No Brasil, a taxa de desemprego permaneceu em 5,3%, enquanto a produção industrial caiu 0,6% no mês e 1,2% na comparação anual. O Governo Central registrou déficit primário de R$ 13,6 bilhões em agosto, melhor que a mediana das projeções.
O dólar avançou 0,6% frente ao real. Houve saída líquida de R$ 263 milhões de capital estrangeiro na semana, mas setembro acumulou entrada de R$ 9,1 bilhões e 2026, de R$ 27,4 bilhões.
Destaques da semana
A Hapvida liderou os ganhos, com alta de 24,6%, após dados indicarem queda de 37% nas novas ações judiciais contra o sistema de saúde privado em agosto.
Na ponta negativa, o Santander recuou 5,6%, acompanhando a queda das ações de sua controladora espanhola, que reduziu o valor implícito da oferta de permuta pelos papéis da subsidiária brasileira.
FONTE: https://conteudos.xpi.com.br/
Mateus H. Passero
Assessor de investimentos
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