Violência estrutural e Direitos Humanos

18 de setembro de 2020
4 mins read

Sem dúvida, refletir sobre Direitos Humanos e violência estrutural é e sempre será importante e oportuno. Neste artigo faremos dois movimentos de reflexão, num primeiro momento apresentaremos alguns espaços de construção da violência estrutural e sua disseminação na sociedade nos aparelhos de poder constituído como mecanismo de controle e subjugação social, política, afetivo e financeiro, entre outros. Num segundo momento, será necessário mostrar a importância dos Direitos Humanos numa sociedade repleta de contradições.
Nos deparamos com diversas formas de violência estrutural, que, segundo André Langer, se manifesta em “um nível institucional e sistemático de produção e perpetuação de modos de vida violentos ou que geram a violência”. Conforme Langer, encontramos quatro grandes traços da violência estrutural, compreendida como um processo histórico de desigualdade de poder e de participação das maiorias pobres nas riquezas econômicas, sociais e culturais da sociedade em que vivem: 1) Violência política; 2) Violência do modelo de desenvolvimento; 3) Violência do sistema financeiro; 4) Violência da desigualdade social.
Para o mestre e doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, destaca que a violência estrutural é o traço mais profunda do Estado Brasileiro, é importante ressaltar que segundo o sociólogo: “Boa parte da violência que acomete a história do Brasil foi praticada pelo Estado. O Estado brasileiro se constitui não por uma demanda social, de construção de instituições que garantam o exercício da cidadania. Desde a sua origem, o Estado vem para impor uma ordem e obrigar a sociedade a se curvar a esta ordem que interessa a poucos, a apenas uma elite. Isso produz instituições, tradições, uma cultura institucional autoritária, em que o poder público e seus integrantes não se colocam no papel de servidores, mas muito mais no papel de detentores do poder, e exercem esse poder para excluir demandas sociais, para suprimir conflitos que são vistos como atentatórios à própria ordem jurídica e social”.
Segundo, Ghiringhelli Azevedo, as diversas formas de violação dos direitos humanos, se dá no Brasil em diferente formas e contextos, pode-se inferir, que… “A sociedade brasileira historicamente é muito violenta. A história social do Brasil pode ser contada como a história social da violência. A colonização e o massacre da população indígena, a questão da escravidão e o tratamento dado à população negra, a relação entre a sociedade de uma maneira geral com crianças, mulheres e idosos – tradicionalmente esses setores da população têm sido afetados e vitimizados por práticas de violência bastante disseminadas ”, a partir dessa reflexão, pode-se dizer que… “A polícia brasileira historicamente é pouco preparada para atuar em contextos democráticos, utilizando a violência de forma excessiva e negociando seu poder de sujeição criminal, então tudo isso gera uma situação em que se tornam frequentes disputas de territórios e confrontos armados como forma de produção identitária”.
Precisamente, neste contexto de violência estrutural surge a necessidade de confrontar a realidade com os princípios fundamentais dos Direitos Humanos. Em tempo de narrativa de barbárie e de surgimento de novos movimentos, como os defensores do neofascismo que encontramos de forma sutil em tempo de brutalidade nos diversos aparelhos de Estado, é necessário pensar e resgatar o sentido profundo daquilo que chamamos dos direitos de todos os humanos. Os Direitos Humanos, encontram seu sentido pleno no respeito ao indivíduo. Sua premissa fundamental é que cada indivíduo é um ser moral e racional que merece ser tratado com dignidade. Eles são chamados de direitos humanos porque são universais. Sem direitos humanos, a barbárie é garantia de sucesso. Sendo assim, os direitos humanos são direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição.
As Nações Unidas apresenta algumas das características mais importantes dos direitos humanos e que torna-se importantes de lembrar e resgatar seus sentidos na sociedade contemporânea, elas são, “1)- Os direitos humanos são fundados sobre o respeito pela dignidade e o valor de cada pessoa; 2)- Os direitos humanos são universais, o que quer dizer que são aplicados de forma igual e sem discriminação a todas as pessoas; 3)- Os direitos humanos são inalienáveis, e ninguém pode ser privado de seus direitos humanos; eles podem ser limitados em situações específicas. Por exemplo, o direito à liberdade pode ser restringido se uma pessoa é considerada culpada de um crime diante de um tribunal e com o devido processo legal; 4)- Os direitos humanos são indivisíveis, inter-relacionados e interdependentes, já que é insuficiente respeitar alguns direitos humanos e outros não. Na prática, a violação de um direito vai afetar o respeito por muitos outros; 5)- Todos os direitos humanos devem, portanto, ser vistos como de igual importância, sendo igualmente essencial respeitar a dignidade e o valor de cada pessoa”.
Para a professora Fernanda Frizzo Bragato, pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Direito e coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos da Unisinos, destaca, que “O fundamento dos direitos humanos é a dignidade humana e está dignidade decorre da racionalidade. O indivíduo humano racional porta um valor moral intrínseco que justifica a titularidade de direitos que podem ser sintetizados no exercício da liberdade. A concepção que sustenta o discurso dominante dos direitos humanos é o individualismo: ideia segundo a qual os indivíduos são concebidos como entidades autônomas dotadas de razão e consciência. Esta ideia se tornou o paradigma a partir do qual se estruturaram as sociedades modernas do Ocidente e que influenciou as teorias sobre a origem do Estado”.
Na atualidade, voltou com força, a legitimação das frases, como, “Bandido bom Bandido morto”, ou o famoso, “Cancelamento de CPF”, proposições de tinte barbárico em que se legitima a validade da violência estrutural e se reforça sua permanência de forma legitimada por autoridades que deveriam de defender o humano. Porém, sempre é importante perguntar-se: Que tipo de violência estrutural defendo na sociedade contemporânea? E, qual, o significado dos Direitos Humanos em uma sociedade polarizado? Num momento em que alguns dos nossos direitos humanos foram restringidos a fim de implementar medidas de saúde pública, defensores e defensoras de direitos humanos são mais importantes do que nunca na nossa luta para vencer a pandemia da Covid-19 e assegurar que ninguém fique para trás. É imprescindível, ampliar os debates sobre as diversas formas em que se manifesta a violência estrutural, confrontando com os princípios fundamentais e universais dos Direitos de todos os Humanos.

  • Daniel Andrés Baez Brizueña é formado em Teologia, Ciencia das religiões, Marketing, Letras e Filosofia.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

Publicação anterior

DEFINIDOS

Próxima publicação

NOVO SÃO CRISTÓVÃO

Última publicação de Colunistas

Panorama de Mercado

Petróleo recua, mas incertezas ainda desafiam economia global Os mercados internacionais encerraram mais uma semana acompanhando atentamente os desdobramentos das negociações entre Estados Unidos e

Dois Toques

ACOMPANHE DIARIAMENTE NA PORTO UNIÃO FM 87.9 O PROGRAMA ESPORTE E RESENHA SEMPRE AS 12H50 PORTO UNIÃO CONQUISTA TÍTULOS NACIONAIS NO MAIOR CERTAME DE TÊNIS

Panorama de Mercado

Brasil entre inflação, petróleo e ruído político A economia brasileira voltou a conviver com um ambiente de maior volatilidade nos últimos dias. A combinação entre

GENÉRICOS E REMÉDIOS MAIS BARATOS

Dr. Vicente Caropreso – Médico e Deputado Estadual Dia 20 de maio comemora-se o Dia Nacional do Medicamento Genérico, uma grande vitória para a Saúde

O ORGULHO É FILHO DO ERRO

Por Jaime Folle O orgulho raramente nasce da verdade. ele é, quase sempre, filho direto do erro. O orgulho é um dos sentimentos mais silenciosos
Vá para oTopo