Vida após Pandemia (III)

6 de agosto de 2020
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Neste terceiro e último artigo da série (Vida Após Pandemia), caro leitor, dando sequência as reflexões anteriores, hoje, vamos refletir sobre o otimismo antropológico e a sensibilidade social na pregação do Papa Latinoamericano. É notório é incontestável o otimismo do Papa Francisco com o ser humano. Esta realidade se complementa com a sua sensibilidade social, que não encontra fronteira. Ele, olha o ser humano não pelo viés capitalista, que explora a força do trabalho. Francisco torna suas reflexões alicerçada na Antropologia cristã por excelência, está, por sua vez olha o ser humano pela sua dignidade. O ser humano pensado neste contexto, possui um valor incalculável é muito mais abrangente. A dignidade em jogo não pode ser esgotada somente na lei mercadológico. Esse é o olhar antropológico que encontramos no livro VIDA APÓS PANDEMIA*, de autoria do Papa Francisco. Que apresenta uma profunda sensibilidade social alicerçada na opção preferencial pelos pobres. Não é uma opção de cunho ideológica ou política, mas, é uma opção que surgem da bem-aventurança cristã.
A voz profética de Francisco não se cansa de enaltecer o valor da dignidade humana. Por isso o papa insiste em afirmar, que, a Vida após Pandemia deve ser construído a partir de valores perene como a solidariedade: “Não se perca esta ocasião para dar nova prova de solidariedade, inclusive recorrendo a soluções inovadoras. Como alternativa, resta apenas o egoísmo dos interesses particulares e a tentação dum regresso ao passado, com o risco de colocar a dura prova a convivência pacífica e o progresso das próximas gerações”. Essa preocupação que mistura otimismo e esperança.
Francisco propõe como arma eficaz na luta constante contra a indiferença, o egoísmo e o esquecimento. A indiferença, torna insensível a compaixão humana. O egoísmo, afasta o espirito de acolhida. E o esquecimento, torna o ser humano apático perante o sofrimento do semelhante. É nesse contexto que o grito de Francisco se justifica, quando clama: “Este não é tempo para a indiferença, porque o mundo inteiro está a sofrer e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia”. A indiferença, é um mal que deve ser combatido por todos. Quem se torna impassível perante o sofrimento do outro não pode ser um bom cristão. O Papa, ainda lembra, que o maior mal que o ser humano pode cometer e se tornar egoísta e pensar somente em si próprio, “Este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas”.
O perigo que traz consigo o vírus da Covid-19 é que não olha classe social, nem status e nem poder econômico. Por isso, o pontífice insiste na cultura de uma memória coletiva que combata o esquecimento. “Este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas”. A amnesia, não pode tomar lugar perante o grito de angustia e de sofrimento causado pelo coronavírus a milhões de pessoas que perderam seus seres queridos. “Verdadeiramente palavras como indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento não são as que queremos ouvir neste tempo”, o Papa, espera de toda a cristiandade e de todas as pessoas de boa vontade um esforço comum para construir uma onda nova de sensibilidade humana e que esta seja a marca mais importante a ser vivenciado na vida após pandemia.
Nesse contexto de denúncia corajosa, o Papa lembra a coragem de muitos governantes e de muitos governos que têm tomado medidas exemplares com prioridades claras para defender a população, “Governos que enfrentam a crise desta forma mostram a prioridade de suas decisões: as pessoas primeiro. E isso é importante porque todos sabemos que defender o povo significa um colapso econômico. Seria triste se eles escolhessem o contrário, o que levaria à morte de muitas pessoas, uma espécie de genocídio viral”. Perante a premissa, que, é preciso em primeiro lugar salvar a economia, a perspectiva antropológica de Francisco, torna-se claro é incisivo: “o valor da vida humana em primeiro lugar”. Nesta realidade é que precisamos olhar com criticidade as decisões tomadas por gestores públicos. Aqueles que defendem a vida e cuidam das pessoas, certamente, serão reconhecidos no futuro. E aqueles que fizeram o contrário a história os julgará com a medida justa da força e da memória da justiça.
Ao olhar as consequências sociais que causam a pandemia de Covid-19 o papa insiste para que os governantes e gestores possam planejar a vida dos cidadãos após a pandemia, e lembra, que, “A preparação para o depois é importante. Já podemos ver algumas consequências que precisam ser enfrentadas: fome, especialmente para pessoas sem emprego permanente (trabalho precário, etc.), violência, o aparecimento de usurários (que são a verdadeira chaga do amanhã social, criminosos desumanos), etc”. Certamente essas graves consequências sociais não serão mitigadas sacrificando os trabalhadores. Perante essa realidade, o Papa, propõe, “Talvez seja a hora de pensar em um salário universal que reconheça e dignifique as tarefas nobres e insubstituíveis que vocês realizam; capaz de garantir e tornar realidade esse slogan tão humano e cristão: nenhum trabalhador sem direitos”.
A sensibilidade antropológica em Francisco está aliada à sua profunda sensibilidade social, “Quero que pensemos no projeto de desenvolvimento humano integral que ansiamos, focado no protagonismo dos Povos em toda a sua diversidade e no acesso universal aos três T que vocês defendem: terra e comida, teto e trabalho”. Sem o devido respeito à dignidade, o ser humano caminha para sua própria destruição. O anseio de Francisco, no mundo do trabalho e das relações humanas é que a vida após pandemia seja uma experiência nova, “Nossa civilização, tão competitiva e individualista, com suas taxas frenéticas de produção e consumo, seus luxos excessivos e lucros desmedidos para poucos, precisa mudar, se repensar, se regenerar”.
O otimismo antropológico de Francisco encontra seu sentido na figura de Jesus ressuscitado. O Papa, apresenta o sentido da ressurreição de Jesus para o cristianismo contemporâneo como caminho de conversão e renovação. A injustiça só é possível vencer a partir do amor e da caridade: “Não se trata duma fórmula mágica, que faça desvanecerem-se os problemas. Não! A ressurreição de Cristo não é isso. Mas é a vitória do amor sobre a raiz do mal, uma vitória que não “salta” por cima do sofrimento e da morte, mas atravessa-os abrindo uma estrada no abismo, transformando o mal em bem: marca exclusiva do poder de Deus”. As releituras das bem-aventuranças cristã está constantemente nas entrelinhas dos seus afazeres teológico, antropológico, sociológico de Francisco. Sem essa chave tão importante, será difícil compreender adequadamente o grito de otimismo e de esperança que encontramos em suas homilias e discursos. Além dos seus gestos de acolhida que nos surpreende constantemente.
O papa do fim do mundo, não cansa em acreditar na possibilidade de um mundo mais justo, onde o ser humano seja mais sensível perante a dor e o sofrimento do outro. O otimismo e a sensibilidade antropológica de Francisco não encontram limites e nem fronteiras. Talvez seja justamente essa força e otimismo, a grande herança que pretende deixar a humanidade Jorge Mario Bergoglio.

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