Vida após pandemia (I)

9 de julho de 2020
5 mins read

VIDA APÓS PANDEMIA*, é o título do livro de autoria do Papa Francisco, o prefacio está assinado pelo cardeal Michael Czerny, SJ. O livro, apresenta as reflexões do Papa Francisco neste tempo de pandemia. É importante situar o texto, para compreender sua relevância, e assim, nos ajudar a realizar uma leitura espiritual, antropológico, sociológicos, filosófico e teológico no decorrer do nosso texto.
Nos primeiros meses de 2020, o Papa Francisco, refletiu em suas homilias, com frequência, sobre a pandemia do coronavírus, à medida que o vírus se apoderou da família humana e ceifava milhares de vida na Europa, Ásia e América Latina, Francisco tornou-se uma voz de esperança para o mundo.
Segundo o Cardeal Czerny, no prefácio do livro, a coletânea tem dois objetivos. “O primeiro é o de sugerir uma direção, chaves de leitura e diretrizes para a reconstrução de um mundo melhor que possa nascer desta crise da humanidade. O segundo objetivo é, em meio a tanto sofrimento e perplexidade, semear a esperança. O Papa fundamenta claramente esta esperança na fé, porque “com Deus, a vida não morre jamais”. Os textos de Francisco, assim, “falam das necessidades e do sofrimento das pessoas em várias situações locais na maneira muito pessoal, sentida, comprometida e esperançosa do Papa”. O livro, tem por finalidade, nas palavras de Francisco, “refletir sobre o valor do humano em tempo de grande dor, medo”. Aliás, as tragédias muitas vezes querem invocar no ser humano um espirito pessimista. O Papa não admite o pessimismo em quanto pensar o humano, Czerny, lembra em seu prefácio que “ Estes oito textos mostram a abordagem calorosa e inclusiva do Papa Francisco, que não reduz as pessoas a unidades a serem contadas, medidas e geridas, mas une todos em humanidade e espírito. E depois, com não menos calor e inclusão, o Papa desafia todos – desde os mais influentes aos mais humildes – a ousar fazer o bem, e fazer melhor. Nós podemos! Temos de o fazer!”.
O texto não silencia “os silenciados” da contemporaneidade, pelo contrário, o Papa escuta e olha também para os muitos que normalmente são mantidos em silêncio e invisíveis, aqueles sem voz e sem vez no mundo contemporâneo: “A nossa civilização […] precisa de uma mudança, de um balanço, de uma regeneração. Vós sois construtores indispensáveis desta mudança que já não pode ser adiada”, e prossegue, “Nestes dias olhar para os mais pobres pode ajudar-nos a todos a tomar consciência do que realmente nos está acontecendo e da nossa verdadeira condição”.
Dirigindo-se a toda a Humanidade não “do alto” ou em abstrato, Francisco estende a mão com afeto paternal e compaixão para fazer seu o sofrimento e o sacrifício de tanta gente: “Que Senhor da vida acolha os defuntos no seu reino e conceda conforto e esperança aos que ainda sofrem, especialmente os idosos e os que estão sós. Que ele nunca retire o seu consolo e a sua ajuda àqueles que são especialmente vulneráveis, como as pessoas que trabalham em clínicas, ou vivem em casernas e prisões”. E de forma insistente, expande a lista, “médicos, enfermeiros e enfermeiras, fornecedores, limpadores, cuidadores, transportadores, forças de ordem, voluntários, sacerdotes, religiosos e religiosas”, assim como “pais, mães, avós e professores que mostram às nossas crianças, com pequenos gestos diários, como enfrentar e atravessar uma crise, ajustando suas rotinas, levantando o olhar e promovendo a oração”. Ainda, ressalta e se solidariza, “Quão difícil é ficar em casa para quem mora em uma pequena casa precária ou para quem de fato não tem teto. Quão difícil é para os migrantes, as pessoas privadas de liberdade ou para aqueles que realizam um processo de cura para dependências”. E, volta a insistir: “penso nas pessoas, especialmente mulheres, que multiplicam o pão nos refeitórios comunitários, cozinhando com duas cebolas e um pacote de arroz um delicioso guisado para centenas de crianças, penso nos doentes, penso nos idosos. […] nos camponeses e os agricultores familiares, que continuam a trabalhar para produzir alimentos saudáveis, sem destruir a natureza, sem monopolizá-los ou especular com a necessidade do povo”.
O Papa argentino, volta a alertar ao longo dos seus textos sobre o perigo constante que a humanidade enfrenta, não só o vírus da Covid-19 e sim o vírus da indiferença egoísta, “alternativa, resta apenas o egoísmo dos interesses particulares e a tentação dum regresso ao passado, com o risco de colocar a dura prova a convivência pacífica e o progresso das próximas gerações” e com isso vem o “perigo de esquecermos quem ficou para trás. O risco é que nos atinja um vírus ainda pior: o da indiferença egoísta”.
Francisco, desenvolve uma leitura otimista e alerta enfaticamente sobre o momento de nos prepararmos para uma mudança fundamental no mundo após Covid-19. Em uma nota escrita à mão a um juiz argentino, o Papa enfatiza: “É importante nos prepararmos para o depois”. E, alerta, com insistência no cuidado da mãe terra já que um egoísmo perigoso nos infecta muito mais do que a COVID-19, “Falhamos na nossa responsabilidade de guardiães e administradores da Terra. Basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum. Poluímo-la, saqueámo-la, colocando em perigo a nossa própria vida […]. Não há futuro para nós se destruirmos o meio ambiente que nos sustenta”.
A humanidade como um todo, precisa diante da pandemia, reconhecer sua interligação na vulnerabilidade. O pontífice propõe em seus textos caminhos para aprofundar na mística cristã, insistindo na estima da espiritualidade, “A oração torna-se hoje o caminho para descobrir como se tornar discípulos e missionários, encarnando o amor incondicional em circunstâncias muito diversas para cada ser humano e cada criatura. Este caminho pode conduzir-nos a uma visão diferente do mundo, das suas contradições e das suas possibilidades, pode ensinar-nos dia após dia como converter as nossas relações, os nossos estilos de vida, as nossas expectativas e as nossas políticas para o desenvolvimento humano integral e para a plenitude da vida. Portanto, a escuta, a contemplação, a oração são parte integrante da luta contra as desigualdades e as exclusões e a favor de alternativas que sustentem a vida”.
A modo de conclusão, é importante ressaltar que Francisco de Roma, insiste, na necessidade de “refletir sobre as atividades econômicas e sobre o trabalho”. Voltar apenas ao que se fazia antes da pandemia, pode parecer a escolha mais óbvia e prática, mas por que não mudar para algo melhor? O Papa está preocupado, “com a hipocrisia de certos personagens políticos que dizem que querem enfrentar a crise […] mas enquanto falam fabricam armas”. E alerta, “certamente, precisamos de “armas” de um tipo diferente para combater as doenças e aliviar os sofrimentos, a começar por todo o equipamento necessário para clínicas e hospitais de todo o mundo”.
Nos próximos artigos, desenvolveremos de forma sintética as ideias-base encontrado no livro citado. Desde já, fica o convite, para você caro leitor, acompanhar-nos nesta caminhada de reflexão filosófica, espiritual, social, teológica, antropológica e sociológica do Papa Francisco.

  • Papa Francisco, VIDA APÓS PANDEMIA, Libraria Editrice Vaticana, 2020.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

Publicação anterior

TESTAGEM EM IDOSOS

Próxima publicação

A CULTURA DO ÓDIO

Última publicação de Colunistas

Panorama de Mercado

Petróleo recua, mas incertezas ainda desafiam economia global Os mercados internacionais encerraram mais uma semana acompanhando atentamente os desdobramentos das negociações entre Estados Unidos e

Dois Toques

ACOMPANHE DIARIAMENTE NA PORTO UNIÃO FM 87.9 O PROGRAMA ESPORTE E RESENHA SEMPRE AS 12H50 PORTO UNIÃO CONQUISTA TÍTULOS NACIONAIS NO MAIOR CERTAME DE TÊNIS

Panorama de Mercado

Brasil entre inflação, petróleo e ruído político A economia brasileira voltou a conviver com um ambiente de maior volatilidade nos últimos dias. A combinação entre

GENÉRICOS E REMÉDIOS MAIS BARATOS

Dr. Vicente Caropreso – Médico e Deputado Estadual Dia 20 de maio comemora-se o Dia Nacional do Medicamento Genérico, uma grande vitória para a Saúde

O ORGULHO É FILHO DO ERRO

Por Jaime Folle O orgulho raramente nasce da verdade. ele é, quase sempre, filho direto do erro. O orgulho é um dos sentimentos mais silenciosos
Vá para oTopo