VIDA APÓS A PANDEMIA (II)

24 de julho de 2020
5 mins read

“Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?

Uns dos temas que o papa desenvolve no livro VIDA APÓS A PANDEMIA, é o MEDO, o lugar por excelência onde encontraremos resposta, está no Silencio da Cruz. O papa inicia sua reflexão com pergunta: “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” E logo, contextualiza sua reflexão e sua mensagem: “Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos”.

O pontífice, fundamenta sua narrativa com a passagem dos Evangelhos de Marcos e Mateus, e afirma, que, À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos”. O Papa desenvolve suas ideias a partir de três conceitos fundamentais na vida cristã: Tempestade; Fé e o Mistério da Crus.

No primeiro conceito encontramos a TEMPESTADE: são as tempestades da vida que demostra a vulnerabilidade que carregamos como pessoa e como sociedade, Francisco enfatiza essa realidade de forma crítica, afirmando:

A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade”.

A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de “empacotar” e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente “salvadores”, incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades”.

Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso “eu” sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos”.

O Papa, lembra a humanidade que o desejo desenfreado de lucro e as injustiças, geram um mundo doente, em que não existe mais espaço para ouvir o grito dos oprimidos: Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: “Acorda, Senhor!

O tempo de isolamentos social ao que o mundo foi sometido, segundo o pontífice, “Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida. É a força operante do Espírito derramada e plasmada em entregas corajosas e generosas”.

No segundo momento, o Papa apresenta o conceito de . A fé é o único caminho que nos leva a humildade, a fé deve ser a rocha firme que nos sustenta perante os desafios da vida. Para Francisco de Roma é na fé que Deus interpela a bondade humana e o convida para encontrar-se com seus mistérios:

– “O início da fé é reconhecer-se necessitado de salvação. Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores, das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais”.

“O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar”.

“O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor”.

No terceiro momento, encontramos o conceito do MISTERIO DA CRUZ: também, o mistério da vida se manifesta para Francisco, no mistério da cruz, sendo, assim, nesse mistério do silencio devemos encontrar sentido a as contrariedades e devemos fortalecer nosso espirito, além de manifestar novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade:

– “Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (Is 42,3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança”.

Abraçar a sua cruz significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa ânsia de omnipotência e possessão, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade”.

– “Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança. Aqui está a força da fé, que liberta do medo e dá esperança”.

A modo de conclusão é importante ressaltar que Francisco, volta a resgatar a pergunta inicial da sua reflexão, para demonstrar que o Deus que se manifesta na história humana, não é um Deus fantasma, não é um Deus sem compaixão, não é um Deus fabricado com a imaginação gananciosa de muitos líderes religiosos inescrupulosos e malandros como temos observado na contemporaneidade e especialmente neste tempo da pandemia. O Deus, que Francisco testemunha é um Deus apaixonado e carinhoso para com toda sua criação, que continuamente se preocupa com o ser humano e sempre nos questiona: “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”. A resposta a tal questionamento, caro leitor, devemos oferecer desde nossa experiência de Deus. A fé nunca se esgota de sentido. Ela sempre se multiplica em constante releitura dos acontecimentos. Até o próximo artigo!

* Papa Francisco, VIDA APÓS PANDEMIA, Libraria Editrice Vaticana, 2020.

* Daniel Andrés Baez Brizueña é formado em Teologia, Ciência das religiões, Marketing, Letras e Filosofia. (danan1011@hotmail.com)

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

Publicação anterior

MAIS EDUCAÇÃO

Próxima publicação

EFEITO DA PANDEMIA

Última publicação de Colunistas

Panorama de Mercado

Petróleo recua, mas incertezas ainda desafiam economia global Os mercados internacionais encerraram mais uma semana acompanhando atentamente os desdobramentos das negociações entre Estados Unidos e

Dois Toques

ACOMPANHE DIARIAMENTE NA PORTO UNIÃO FM 87.9 O PROGRAMA ESPORTE E RESENHA SEMPRE AS 12H50 PORTO UNIÃO CONQUISTA TÍTULOS NACIONAIS NO MAIOR CERTAME DE TÊNIS

Panorama de Mercado

Brasil entre inflação, petróleo e ruído político A economia brasileira voltou a conviver com um ambiente de maior volatilidade nos últimos dias. A combinação entre

GENÉRICOS E REMÉDIOS MAIS BARATOS

Dr. Vicente Caropreso – Médico e Deputado Estadual Dia 20 de maio comemora-se o Dia Nacional do Medicamento Genérico, uma grande vitória para a Saúde

O ORGULHO É FILHO DO ERRO

Por Jaime Folle O orgulho raramente nasce da verdade. ele é, quase sempre, filho direto do erro. O orgulho é um dos sentimentos mais silenciosos
Vá para oTopo