O “TARIFAÇO” DE TRUMP E SEUS IMPACTOS NO SUL DO BRASIL

31 de julho de 2025
7 mins read

No início de julho de 2025, uma decisão do governo dos Estados Unidos pegou o Brasil de surpresa: a imposição de uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados ao mercado norte-americano. O anúncio veio do presidente Donald Trump, que alegou “retaliação política» por conta de processos judiciais envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro no Brasil. Mas, independentemente das razões, os efeitos dessa medida vão muito além da política. Eles já começam a ser sentidos na economia — especialmente nas regiões produtoras, como o Paraná, Santa Catarina e, em especial, no Planalto Catarinense e Sudeste Paranaense.
E o que isso significa, na prática? Significa que produtos brasileiros, que antes eram vendidos para os Estados Unidos com preços competitivos, agora ficarão bem mais caros por lá. Isso pode parecer distante, mas os efeitos dessa mudança batem à porta do cidadão comum: preços mais altos no supermercado, ameaças de demissões no setor produtivo e até risco de aumento na conta de luz.

EXPORTAÇÕES E CONTRATOS PREJUDICADOS
Os Estados Unidos são um dos principais compradores dos produtos brasileiros. Em 2024, Santa Catarina exportou cerca de US$ 11,6 bilhões, sendo os EUA o principal destino, com US$ 1,74 bilhão — o equivalente a 15% de todas as exportações do estado, segundo dados do governo estadual. No Paraná, ainda que os números totais mais recentes estejam em consolidação, análises anteriores da Federação das Indústrias e da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/PR) apontaram que os EUA ab-sorvem uma parcela significativa das exportações industriais e agropecuárias do estado, com destaque para o setor madeireiro, de carnes e papel.
Do Paraná e de Santa Catarina saem toneladas de carnes, móveis, papel, aço, produtos químicos, madeira beneficiada, peças industriais e café. Boa parte desses produtos tem origem em cidades como Lages, São Joaquim, União da Vitória, Mafra, Caçador e Joinville — polos produtivos de setores que dependem fortemente do mercado internacional.
Só em 2025, nos primeiros seis meses, Santa Catarina já havia enviado aos EUA mais de US$ 118 milhões apenas em artigos de carpintaria de madeira, além de US$ 82 milhões em motores elétricos e US$ 72 milhões em peças industriais.
Produtos como madeira serrada e painéis de MDF, abundantes no Planalto Ca-tarinense, somaram quase US$ 60 milhões cada, conforme relatórios do Observatório FIESC (Federação das Indústrias de Santa Catarina) e dados do Comex Stat (sistema estatístico mantido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
No caso do Paraná, embora os dados por microrregião sejam menos detalhados, estimativas da Federação das Indústrias e da Se-cretaria de Desenvolvimento apontam que cerca de 17% das exportações estaduais para os EUA envolvem produtos com forte presença no Sudeste Paranaense, como carne suína e bovina, madeira beneficiada e móveis — setores centrais na economia de União da Vitória e municípios vizinhos.
Com a nova tarifa de 50% imposta pelos EUA, muitos desses contratos de exportação ficarão economicamente inviáveis. Ou seja,empresas brasileiras deixarão de vender porque o preço final ficará muito alto para os compradores norte-americanos. E, com menos vendas, sobrarão mercadorias no mercado interno — o que, ao contrário do que se imagina, nem sempre reduz o preço para o consumidor.
Isso ocorre porque muitas dessas empresas têm a produção e o transporte voltados especificamente para exportação. Quando perdem o mercado externo, precisam redimensionar fábricas, fretes, estoques e logística. Em muitos casos, a saída encontrada é diminuir a produção, suspender contratos e cortar empregos, afetando diretamente as economias locais.

RISCO REAL DE DEMISSÕES NAS INDÚSTRIAS LOCAIS
A FIESC alertou que a nova tarifa de 50 % dos EUA afeta diretamente o setor de madeira e móveis.
Em 2024, o estado exportou US$ 1,55 bilhão em produtos florestais — sendo US$ 765,8 milhões só para os EUA — e esse segmento gera cerca de 72 mil empregos em SC.
No Paraná, apesar de os dados estaduais não detalharem a perda de contratos por destino, as exportações de carne in natura — bovina, suína e de frango — atingiram US$ 1,56 bilhão entre janeiro e abril de 2025, um aumento de 20,8 % sobre o mesmo período em 2024.
Em Lages e região, onde a indústria madeireira predomina, parte das encomendas para os EUA já foi suspensa. A FIESC e outras entidades alertam que isso pode levar à redução de turnos e contratação de férias coletivas.
Alguns frigoríficos supridores de carne suína e bovina vêm avaliando destinos alternativos como Oriente Médio e Ásia. No entanto, ocorre que essa migração não acontece por simples remanejamento de vendas: exige certificações sanitárias específicas (como reconhecimento pela OMS), adaptações na produção e logística, além de contratos de longo prazo. Segundo a FIESC, “não existe mercado para comprar o volume que nós produzimos”.
Sem esse redirecionamento imediato, muitos frigoríficos enfrentam paralisações temporárias, solicitação de licenças não remuneradas ou até demissões, enquanto tentam se adaptar a um novo cenário de incerteza.

ENERGIA ELÉTRICA E COMBUSTÍVEIS: AUMENTO POSSÍVEL, MAS AINDA INCERTO
Outro ponto de atenção está na matriz energética.
Parte do petróleo extraído no Brasil era vendido aos Estados Unidos. Com a tarifa, essa exportação também pode cair — o que significa menos entrada de dólares no país.
Além disso, equipamentos usados na produção de energia, como turbinas, transformadores e componentes de usinas, são comprados de fora e pagos em dólar. Com a alta da moeda americana, esses equipamentos ficam mais caros. O reflexo pode aparecer nas contas de energia, especialmente se houver necessidade de novos investimentos nas redes locais.
Nos combustíveis, a situação é semelhante. O Brasil ainda importa derivados de petróleo, e esses produtos também são pagos em dólar. Com a valorização da moeda americana, é possível que os postos reajustem os preços nos próximos meses, especialmente se o governo federal não adotar medidas de contenção.

E O SUPERMERCADO?
QUAIS ITENS PODERÃO PESAR MAIS NO ORÇAMENTO?
A tarifa imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros poderá gerar impactos indiretos no bolso do consumidor, inclusive em supermercados da região. Um dos primeiros reflexos poderá ser sentido na carne bovina. Com frigoríficos reduzindo a produção e enfrentando dificuldades para realocar exportações, a oferta interna tenderá a diminuir, pressionando os preços.
O óleo de soja e produtos derivados do trigo — como pães, massas e biscoitos — também deverão ficar mais caros, já que parte dos insumos é cotada em dólar. O café, item relevante na pauta exportadora, poderá ter seus preços internos reajustados, caso as exportações encolham e produtores ajustem a oferta. O açúcar, embora amplamente produzido no país, também poderá ser influenciado por fatores externos e sofrer variações.
A valorização do dólar poderá afetar os custos de transporte, embalagens e energia elétrica, elevando os preços de produtos de origem nacional. O resultado poderá ser um supermercado mais caro e um orçamento doméstico ainda mais pressionado.

‘Estamos fazendo isso porque eu posso’, diz Trump sobre tarifas de 50% ao Brasil
A declaração, que ignora fatores econômicos, foi dada após jornalistas questionarem o republicano sobre a taxa imposta ao Brasil. A medida é a mais alta até agora, entre mais de 20 países que devem enfrentar cobranças sobre importação nos EUA a partir de 1º de agosto.
Fonte: G1

Tarifas de Trump podem impactar PIB do Brasil em até R$ 175 bilhões, diz FIEMG
Um estudo feito pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) apontou que a imposição da tarifa de 50% pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil pode gerar, a curto prazo, um impacto negativo no Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 47 bilhões, podendo o valor mais que triplicar a longo prazo e chegar a R$ 175 bilhões.
O levantamento ainda indica que o poder de consumo das famílias pode ser afetado negativamente entre 0,67% e 3,82%.
Em todo o Brasil, até 538 mil postos de trabalho formais e informais podem ser perdidos. A FIEMG aponta que esse número pode ultrapassar 1,3 milhão a longo prazo.
Fonte: https://www.fiemg.com.br

Governo Lula já trata tarifas como realidade e não espera recuo de Trump
Integrantes do círculo mais próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já trabalham com a hipótese de que o presidente americano, Donald Trump, não recuará desta vez e que as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros anunciadas por ele deverão, de fato, entrar em vigor a partir de 1º de agosto. Oficialmente, porém, o governo ainda aposta em uma saída via negociação, apesar de ver a possibilidade de um acordo distante, neste momento.
Fonte: BBC

Pecuaristas dos EUA aplaudem tarifaço e querem banir carne do Brasil
Em meio às preocupações com as tarifas anunciadas pelos Estados Unidos, um setor aplaude com entusiasmo as iniciativas de Donald Trump. E vai além: defende a suspensão total da entrada dos produtos brasileiros nos Estados Unidos.
“A Associação Nacional de Pecuaristas dos Estados Unidos (NCBA) apoia firmemente o plano do presidente Trump de impor ao Brasil com uma tarifa de 50%”, cita a entidade à CNN.
Fonte: CNN

Tarifaço pode impactar vendas de suco de laranja, café, carne e frutas
Segundo o Cepea, os Estados Unidos importam atualmente cerca de 90% do suco de laranja que consomem, sendo que o Brasil é responsável por aproximadamente 80% desse total.
Quanto ao café, os Estados Unidos são o maior consumidor global do produto e importam cerca de 25% do Brasil.
Fonte : Agência Brasil

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