Panorama de Mercado

23 de abril de 2026
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Real abaixo de R$ 5 e consumo em retomada marcam início de 2026

A taxa de câmbio brasileira encerrou a semana abaixo de R$ 5,00 por dólar, no menor nível desde o início de 2024. A valorização do real ganhou força com a reabertura do Estreito de Ormuz e com o anúncio de cessar-fogo no Oriente Médio, mas esse movimento não nasceu agora. A moeda brasileira já vinha se fortalecendo desde o ano passado e acumula apreciação de 6,6% em 2026 e de 13,5% em 12 meses.

Parte desse desempenho reflete um dólar mais fraco no exterior. A percepção de maior risco nos Estados Unidos tem levado investidores globais a redirecionarem capital para mercados emergentes, e o Brasil aparece entre os principais beneficiados. Além disso, o país surge como um “vencedor relativo” do atual choque do petróleo: a alta das receitas de exportação, sobretudo em commodities energéticas, melhora os termos de troca e fortalece as contas externas. Não por acaso, outros ativos locais também vêm se beneficiando. O Ibovespa, em nível recorde, já acumula alta de 19% no ano, acima do avanço de 11% do índice mexicano e de 15,7% da Bolsa colombiana.

Banco Central mantém discurso prudente

No campo monetário, o diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Paulo Picchetti, adotou postura mais conservadora em evento realizado em Washington. Segundo ele, o Copom seguirá acompanhando atentamente as expectativas de inflação, os dados correntes do IPCA, o mercado de trabalho e as projeções internas da autoridade monetária antes de definir os próximos passos.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de pausa no ciclo de cortes, Picchetti afirmou que o Comitê deliberadamente evitou oferecer qualquer orientação futura neste momento, por não enxergar ganho relevante em fazê-lo. Também ressaltou que as condições econômicas não melhoraram desde a última reunião do Copom e que um ambiente de inflação mais elevada pode reduzir o espaço total para a flexibilização monetária. Ainda assim, ponderou que isso não significa, necessariamente, manutenção dos juros já na próxima reunião.

Serviços fracos e varejo mais forte reforçam retomada do consumo

Os dados de atividade divulgados nesta semana ajudaram a consolidar a leitura de que o consumo das famílias ganhou tração no início de 2026. A receita real do setor de serviços cresceu apenas 0,1% em fevereiro frente a janeiro, abaixo das expectativas de 0,5%. Na comparação com fevereiro de 2025, o avanço foi de 0,5%, também inferior à projeção de mercado, de 1,5%. O principal fator por trás da surpresa negativa foi o desempenho fraco de Transportes e Armazenagem.

Em sentido oposto, os Serviços Prestados às Famílias mostraram recuperação consistente, beneficiados pela expansão da renda real, pelo mercado de trabalho aquecido e pelo aumento das transferências fiscais. No varejo, o quadro foi ainda mais positivo. O índice ampliado cresceu 1,0% em fevereiro, registrando o segundo avanço consecutivo.

A combinação entre a reação do comércio e a melhora dos serviços mais ligados ao consumo reforça a avaliação de que a demanda doméstica acelerou no começo do ano. A renda real disponível segue em expansão, impulsionada pelo emprego e pelos estímulos governamentais. Pelos cálculos atuais, os impulsos de renda e crédito podem adicionar mais de 1,0 ponto percentual ao crescimento do PIB em 2026. A projeção segue em alta de 1,1% no primeiro trimestre, na comparação trimestral, e de 2,0% no acumulado do ano.

Governo amplia estímulos em ano eleitoral

O governo federal anunciou a ampliação do programa Minha Casa, Minha Vida, elevando a meta de contratações de 2 milhões para 3 milhões de unidades até o fim de 2026. O pacote inclui aporte adicional de R$ 20 bilhões do Fundo Social, o que leva o orçamento total da política habitacional para R$ 200 bilhões no ano, um recorde histórico.

O anúncio tem forte peso político. Segundo a pesquisa Quaest, o Minha Casa, Minha Vida é o programa de maior aprovação do governo, com 90% de favorabilidade. Os recursos extras, vale lembrar, vêm do Fundo Social e não entram diretamente nos limites do arcabouço fiscal.

Paralelamente, começa a ganhar forma o pacote antiendividamento do governo. Segundo informações publicadas por O Globo, o Planalto avalia expandir as medidas para além da simples renegociação de dívidas, incluindo novas linhas de crédito subsidiado para motoristas de aplicativo, taxistas e caminhoneiros, com foco na renovação de veículos. A proposta ainda depende do aval da equipe econômica.

No eixo da renegociação, avançam discussões para liberar recursos do FGTS: cerca de R$ 7 bilhões hoje retidos pela Caixa, além de outros R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões voltados à quitação de dívidas caras, como cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais sem garantia. Também estão em estudo estímulos para renegociação de passivos de pequenas empresas e uma nova linha de crédito para empresas de médio porte.

PLDO mantém meta de superávit para 2027

O governo encaminhou ao Congresso o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, preservando a meta de superávit primário de 0,5% do PIB, o equivalente a R$ 73,4 bilhões. O texto trabalha com projeções de crescimento real do PIB de 2,6%, IPCA de 3,1%, Selic de 10,55%, câmbio de R$ 5,47 por dólar e salário mínimo de R$ 1.717 por mês.

Entre os pontos de destaque, o projeto prevê que 39,4% do estoque de precatórios e RPVs será contabilizado para fins de aferição da meta de 2027. O percentual está acima do mínimo legal de 10% e não poderá ser alterado ao longo da execução orçamentária nem nos relatórios bimestrais de receitas e despesas.

Ormuz reabre, mas petróleo segue sob risco

No exterior, o Irã declarou, ao fim da semana, que o Estreito de Ormuz estava “completamente aberto” para embarcações comerciais durante o período de cessar-fogo, em coordenação com a trégua de 10 dias entre Israel e Líbano. A notícia provocou alívio imediato nos mercados: o Brent chegou a cair mais de 10%, refletindo melhora temporária na perspectiva de oferta.

O presidente Donald Trump elogiou a medida, mas deixou claro que o bloqueio naval americano aos portos iranianos continuará em vigor até a conclusão de um acordo de paz. Teerã reagiu afirmando que poderá voltar a fechar o estreito caso os Estados Unidos não liberem navios com destino ao país. Analistas alertam que, mesmo em um cenário benigno, a normalização do fluxo de petróleo pode levar semanas, diante do acúmulo de embarcações e da necessidade de renovação dos seguros marítimos.

A notícia deu suporte aos ativos financeiros. Nos Estados Unidos, o S&P 500 chegou a subir cerca de 1,5% no momento do anúncio. No Brasil, o dólar tocou R$ 4,95, mas devolveu parte do movimento após novas dúvidas sobre a manutenção da reabertura.

China cresce um pouco mais, mas sinais seguem mistos

A economia chinesa cresceu 5,0% no primeiro trimestre de 2026 frente ao mesmo período do ano anterior, ligeiramente acima da expectativa de mercado, que era de 4,8%. Na margem, em comparação com o quarto trimestre de 2025, o crescimento foi de 1,3%, também um pouco acima da mediana das projeções.

Apesar disso, outros indicadores vieram mais fracos. As vendas no varejo subiram 1,7% em março na comparação anual, abaixo da previsão de 2,3%. Os investimentos em ativos fixos avançaram 1,7% no acumulado do ano, contra expectativa de 1,9%. A taxa de desemprego subiu de 5,3% para 5,4%, acima da estimativa de 5,2%. A exceção positiva ficou com a produção industrial, que cresceu 5,7%, superando a previsão de 5,5%.

Como maior importador de energia do mundo e economia fortemente voltada à exportação, a China segue especialmente vulnerável ao choque do petróleo, que já pressiona custos de produção e contribui para um ambiente global mais incerto.

Fed vê no Oriente Médio a principal fonte de incerteza

O Federal Reserve divulgou nesta semana seu Livro Bege, relatório bimestral sobre as condições econômicas regionais nos Estados Unidos. Segundo o documento, empresas de todos os distritos passaram a apontar o conflito no Oriente Médio como a principal fonte de incerteza para contratação, formação de preços e decisões de investimento.

A combinação entre atividade ainda resiliente e cautela crescente por parte das empresas reforça a leitura de que o Fed deve manter os juros inalterados ao longo deste ano.

FONTE:https://conteudos.xpi.com.br/economia/economia-em-destaque-alivio-no-oriente-medio-impulsiona-ativos-no-brasil-e-no-mundo/

Mateus H. Passero
Assessor de investimentos
4traderinvest.com.br
41 9 9890 9119

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