Economia sob tensão: câmbio instável e arrecadação em desaceleração
A semana foi marcada por forte volatilidade no mercado de câmbio. O real voltou a testar o patamar de R$ 5,50 por dólar, oscilando entre R$ 5,40 e R$ 5,50. A instabilidade refletiu o aumento do risco regulatório após a decisão do ministro Flávio Dino, que estabeleceu que leis e decisões administrativas de governos estrangeiros não têm efeito automático no Brasil. A medida coloca bancos em situação delicada: seguir a legislação local pode gerar sanções internacionais, mas atender às exigências externas abre espaço para punições domésticas. O impasse elevou a percepção de risco e pressionou a moeda brasileira.
No campo fiscal, a arrecadação federal somou R$ 254,2 bilhões em julho, alta real de 4,6% frente ao mesmo mês de 2024. O avanço foi impulsionado principalmente por IRPJ/CSLL, contribuições previdenciárias e PIS/Pasep. No acumulado do ano, a receita tributária chegou a R$ 1,68 trilhão, crescimento de 4,4%. O imposto de importação foi o destaque, com expansão de 23%. Apesar do bom desempenho, os números mostram perda de fôlego em linha com a atividade econômica mais fraca. Ainda assim, a expectativa é de que a arrecadação seja suficiente para garantir o cumprimento da meta de resultado primário em 2025.
Atividade arrefece, mas mercado de trabalho segue firme
O aperto nas condições de crédito começa a pesar na atividade. O IBC-Br, indicador do Banco Central usado como termômetro mensal do PIB, recuou 0,1% em junho frente a maio. No segundo trimestre, a economia avançou apenas 0,3%, bem abaixo do crescimento de 1,4% registrado entre janeiro e março. Os setores mais sensíveis ao ciclo econômico lideraram a desaceleração.
Apesar disso, fatores de sustentação permanecem. O mercado de trabalho segue robusto, com desemprego em mínimas históricas e ganhos reais de salários. Além disso, transferências fiscais — especialmente pagamentos de precatórios — ajudam a sustentar a renda disponível. Combinando esses elementos, a expectativa é de crescimento de 2,2% do PIB em 2025, ainda que em ritmo mais contido.
Fed sinaliza cortes; China e Europa mantêm cautela
No cenário internacional, o simpósio de Jackson Hole trouxe pistas relevantes. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, admitiu que a desaceleração do mercado de trabalho dos EUA mudou o balanço de riscos da economia, abrindo espaço para cortes de juros já em setembro. O mercado reagiu precificando 86% de chance de redução na próxima reunião. Powell, no entanto, alertou que a inflação, hoje em 2,7% no acumulado de 12 meses, ainda está acima da meta, e que os efeitos das tarifas comerciais tendem a se acumular nos próximos meses.
Na China, o Banco Popular manteve as taxas de referência nos menores níveis da história — 3,0% para empréstimos de um ano e 3,5% para cinco anos. A decisão ocorre diante da fraqueza dos indicadores: a produção industrial cresceu no ritmo mais lento em oito meses, o varejo teve a menor expansão desde dezembro de 2024 e o volume de novos empréstimos caiu pela primeira vez em duas décadas.
Já na Europa, a economia dá sinais de recuperação. O PMI industrial subiu para 50,5 pontos, superando a linha que separa contração de expansão pela primeira vez desde abril de 2022. O setor de serviços recuou levemente para 50,7 pontos, ainda em território positivo. A Alemanha liderou a melhora, puxada pela indústria. Por outro lado, as pressões inflacionárias sobre insumos e serviços mantêm o Banco Central Europeu em posição cautelosa.
Bolsa fecha em alta com destaques no varejo e na indústria
O Ibovespa encerrou a semana em alta de 1,2% em reais e 0,7% em dólares, aos 137.968 pontos. Entre as principais ações, o Pão de Açúcar (PCAR3) disparou 13,3% após assegurar que recentes renúncias em comitês de gestão não comprometem sua governança. Já a Marfrig (MRFG3) recuou 2,8% após o Cade suspender a análise de fusão com a BRF (BRFS3, -0,2%).



