O compositor mineiro, arquiteto do som do “Clube da Esquina”, deixa um legado atemporal, ressoando por todo o Brasil e além das fronteiras, influenciando artistas de muitas gerações e gêneros.
O Brasil não só perdeu um dos seus artistas mais tocantes, mas também um dos alicerces da música moderna mundial. Lô Borges, o cantor, compositor e guitarrista visionário, com uma obra que ultrapassou limites e marcou uma era, partiu no domingo (2) à noite, aos 73 anos, em Belo Horizonte, devido à falência múltipla dos órgãos. Internado desde outubro, o artista batalhou contra complicações causadas por uma intoxicação medicamentosa. Sua despedida não assinala o fim de uma carreira, mas a construção de uma lenda.
Salomão Borges Filho, o Lô, era mineiro de coração e voz, porém sua música pertencia ao mundo inteiro. Nascido em 1952, foi ainda na adolescência, ao encontrar Milton Nascimento, que ele começou a construir o sonho que se tornaria um dos movimentos mais significativos da história da música o Clube da Esquina.
Juntos, eles elaboraram uma sonoridade bem unica, uma mistura cosmopolita de MPB, rock psicodélico, jazz, e a poesia das serras mineiras que colidiu, rompendo com os modelos existentes.

A revolução, chegou em 1972. Com seus míseros 19 anos, o Lô, co-lançou com o Bituca (Milton Nascimento) o álbum duplo “Clube da Esquina”, uma obra-prima que mudou, para sempre, os parâmetros da canção popular. Não era somente um disco, era um universo sonoro que presenteou a humanidade com hinos atemporais, tipo “O Trem Azul”, “Nuvem Cigana” e “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”. No mesmo ano, ele lançava quase que sub-repticiamente o seu trabalho solo, “Lô Borges” (o Disco do Tênis), cultuado!, um álbum que virou uma pedra fundamental pro indie rock, pro lo-fi, e pra música alternativa global, reverenciado pela inventividade melódica e atmosfera íntima.

A Influência, Silenciosa, mas Global
Discreto, com fala mansa e avesso aos holofotes, o Lô Borges foi um gênio que nunca procurou o estrelato, mas a cuja influência se provou imensurável e perene. Enquanto preferia os palcos menores e a guitarra ou violão, a sua obra corria o mundo, semeando inspiração.
Suas harmonias intricadas e introspecção composição reverberam, tocando titãs do rock, o inglês David Byrne (Talking Heads) e o americano Kurt Cobain (Nirvana), que louvavam sua obra. Na música latino-americana, ele virou um ícone sagrado pra gente tipo Gustavo Cerati (Soda Stereo) e Jorge Drexler.
Produtores ousados e figuras do hip hop acharam, em suas batidas e samples, uma fonte de inspiração criativa sem igual. A canção mais famosa, “O Trem Azul”, virou um clássico atemporal, regravada e amostrada um monte, atestando sua influência constante. Lô era mais do que um cara de sucessos; era um construtor de paisagens sonoras, um criador de mundos, mostrando toda uma geração a ouvir música com profundidade.
LÔ FOI TUDO QUE PODIA SER e agora nos deixa, mas herdamos aquela alquimia incomum de tristeza, esperança e liberdade que ele transmutou em acordes inesquecíveis. O que permanece é esse legado gigante.
Num mundo que não da respiro, a música do Lô Borges é um refúgio, um presente. Um convite irrecusável: ouça com calma, mergulhe nos sentimentos, nunca esqueça; sonhos e canções, são pra sempre.

Samuel Rosa, do Skank, que sempre citou Lô como referência, escreveu:
“Meu ídolo, meu mestre. Lô Borges mudou o rumo da música mineira e brasileira. Sua leveza e poesia vão ficar pra sempre.”
Outros artistas como Gal Costa (em homenagens póstumas feitas por administradores de perfil), Marisa Monte, Liniker e Djavan também se pronunciaram com mensagens de carinho e agradecimento à sua contribuição à música.
Um produtor, amigo, escreveu isso nas redes sociais:
“Lô não só escrevia músicas, ele mostrava a essência de tudo. Ele era tipo nossos Beatles sozinho”.



