Nas últimas semanas, o cenário político brasileiro tem sido marcado por intensas articulações da direita – uma coalizão heterogênea que vai desde setores bolsonaristas a parlamentares conservadores e grupos sociais mobilizados – em torno de pautas que combinam defesa de anistia a aliados, críticas ao Judiciário e disputa de narrativa política. Movimentos, manifestações e debates legislativos vêm tensionando ainda mais um ambiente político já profundamente polarizado, com repercussões que se estendem ao calendário eleitoral de 2026.
Ofensiva centrada na anistia e na reação ao STF
O eixo central da mobilização recente da direita tem sido a defesa de anistia ampla para ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados – especialmente aqueles envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores do ex-presidente atacaram e depredaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Do ponto de vista legislativo, setores da direita tentaram acelerar projetos de anistia e outras medidas que, segundo seus defensores, “restabeleceriam a ordem democrática” e corrigiriam um suposto viés do Judiciário contra líderes conservadores. Complementar a isso foi a mobilização em torno da chamada PEC da Blindagem – um projeto de emenda constitucional que visava alterar dispositivos legais para dar ao Congresso poder de decidir se parlamentares e agentes políticos poderiam ser processados criminalmente, exigindo autorização dos pares. Para críticos, essa proposta teria o efeito prático de reduzir a responsabilização penal de deputados e senadores, incluindo aliados de Bolsonaro.
A polarização ganha força nas ruas
Os maiores atos de rua desde o 8 de janeiro (de 2023) ocorreram em 7 de setembro de 2025. Em defesa da anistia, milhares de apoiadores reuniram-se em diversas capitais do país, empunhando bandeiras de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e vocalizando críticas contundentes ao Supremo Tribunal Federal (STF) e, em especial, ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Entretanto, essa mobilização enfrentou uma contramobilização massiva de setores da esquerda: em 21 de setembro de 2025, manifestações populares em mais de 30 cidades brasileiras reuniram grandes contingentes contra a anistia e a PEC da Blindagem, com participantes clamando contra a impunidade e em defesa da responsabilidade institucional. Os atos foram organizados por frentes de esquerda, movimentos sociais e artistas, e foram amplamente interpretados como uma resposta direta às tentativas da direita de moldar o debate constitucional.
Esse embate nas ruas indica que, apesar da capacidade de mobilização de setores conservadores, a direita enfrenta um contraponto popular forte, capaz de transformar temas jurídicos em causas de ampla mobilização.
O movimento “Acorda Brasil” e outras expressões
Mais recentemente, a mobilização ganhou uma nova dimensão com iniciativas como a “Acorda Brasil”, uma marcha organizada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
O movimento percorreu centenas de quilômetros em direção a Brasília, reunindo críticos do Judiciário e defensores da liberdade de expressão – e reiterando pedidos de anistia aos presos de 8 de janeiro, em especial Bolsonaro. Essa ação combinou mobilização presencial com forte engajamento digital nas redes sociais, tornando-se um dos assuntos mais comentados do país por dias. Os sete dias de caminhada geraram mais de 100 milhões de interações nas redes sociais – superando a repercussão das indicações ao Oscar do filme O Agente Secreto.
Paralelamente, grupos sociais organizados mais oficialmente, como o Movimento Reaja Brasil, têm desempenhado papel semelhante ao convocar protestos e articulações em defesa de pautas conservadoras e contra o governo Lula e o STF.
A narrativa que combate a polarização
As ações mais recentes da direita brasileira se concentram em reconstruir influência institucional, articulando alianças no Congresso e tentando consolidar um discurso político eficaz para 2026. O debate sobre a anistia tem sido instrumentalizado como forma de aprofundar a polarização: para os defensores, trata-se de “superar perseguições políticas”; para críticos, é visto como tentativa de impunidade e ameaça ao Estado de Direito.
Esse uso do discurso jurídico e moral para construir capital político não é isolado; serve como tentativa de realinhar a base bolsonarista com lideranças parlamentares e sociais, e de criar uma pauta que mantenha a coesão de um espectro variado da direita – que inclui desde conservadores tradicionais até setores populistas e radicais. O resultado tem sido um ambiente fragmentado, no ual a direita não está unicamente centrada em Bolsonaro, mas disputa também a liderança de prioridades e estratégias políticas entre múltiplos atores.



