Há motivos para comparar, em termos gerais, parte das estratégias da direita brasileira com tendências observadas em outras democracias latino-americanas – como o caso do Chile pós-plebiscito constitucional. No Chile, setores conservadores também souberam articular uma mobilização em torno de temas de identidade nacional, memória histórica e reação a mudanças constitucionais progressistas; dessa forma, buscou influenciar o desenho institucional do país para frear reformas profundas. Esse ponto de vista ajuda a compreender o elevado número de pré-candidatos à Presidência já declarados ou em posição de largada – Ratinho Júnior (PSD-PR), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Romeu Zema (Novo-MG), além de Eduardo Leite (PSD-RS) e do próprio filho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro. Argumenta-se que essa multiplicidade “anormal” de candidaturas funcionaria como uma estratégia deliberada de testagem eleitoral, destinada a identificar o nome mais consistente, competitivo e politicamente coerente para um eventual segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva, bem como a tentar escapar da polarização bolsonarismo versus lulismo.
No Brasil, embora o contexto histórico e institucional seja distinto, existe uma semelhança no uso de pautas simbólicas (anistia, crítica ao Judiciário, narrativa de perseguição) para reforçar coesão interna e mobilizar bases eleitorais. A tática de transformar disputas jurídicas em causas políticas amplas e de mobilizar multidões em defesa de interpretações específicas de justiça é um elemento que ressoa em várias arenas conservadoras latino-americanas. No entanto, o caso brasileiro tem uma dimensão de polarização interna mais intensa, com confrontos diretos entre Poderes e ampla reação popular contrária às pautas de anistia e blindagem.
O que ainda vem pela frente
O campo conservador brasileiro enfrentará desafios complexos em 2026. Com Jair Bolsonaro inabilitado para concorrer até 2030, a direita busca uma figura-âncora viável para disputar a Presidência da República em 2026.
Na ausência de um candidato fortemente polarizador e de apelo de massas, emergem disputas internas sobre quem poderia unificar o bloco conservador, o que tanto pode fragmentar sua base eleitoral quanto estimular alianças mais moderadas e pragmáticas.
Nesse contexto, o número incomum de pré-candidatos à Presidência pode ser interpretado como uma estratégia deliberada para ampliar a erosão de apoios ao lulo-petismo e, simultaneamente, para submeter esses nomes a um processo informal de seleção. Essas candidaturas-teste funcionariam, assim, como uma espécie de “primárias partidárias”, em analogia – ainda que imperfeita – ao modelo do sistema político norte-americano.
Além disso, a tentativa de fazer da anistia um tema central já enfrentou forte reação pública e pode se tornar um ponto de desgaste político se aparelhar a legislações controversas, como a blindagem institucional. A capacidade de reconfigurar essa narrativa em temas de segurança pública e economia – geralmente mais populares – será crucial para manter relevância eleitoral.
As grandes mobilizações contrárias às pautas de anistia mostram que existe um contrapeso social e político forte à agenda conservadora extrema. Isso pode restringir o avanço de propostas que sejam percebidas como atentatórias à democracia ou à justiça.
Por fim, a direita brasileira tem buscado inspiração (e, em alguns casos, alianças) com setores conservadores internacionais, o que amplia sua visibilidade mas também o debate sobre legitimidade institucional e soberania democrática.
Em suma, a direita brasileira está em uma fase de reorganização e busca de um aprimoramento de sua narrativa, tentando equilibrar mobilização de base com ação legislativa e disputa de hegemonia discursiva.
Os próximos meses deverão mostrar se ela consegue ajustar essas peças de modo a competir eficazmente no pleito de 2026 – sem repetir erros que têm gerado forte reação social – ou se parte de sua base eleitoral será absorvida por outras agendas ou lideranças políticas emergentes



