A febre do ouro voltou.
O ouro ultrapassou a marca simbólica de US$ 4.000 por onça-troy em outubro, atingindo um pico de cerca de US$ 4.059,05, depois de começar o ano perto de US$ 2.800. Isso significa uma alta de mais de 50% em 2025, depois de já ter subido 27% em 2024. É, de longe, um dos melhores desempenhos entre os grandes ativos globais neste ano, superando ações, petróleo e até Bitcoin.
Por que isso está acontecendo agora e o que isso diz sobre a economia global? Vamos por partes.
O ouro voltou a ser porto seguro
O primeiro motivo é antigo: medo.
Medo de recessão, medo de inflação, medo de ruptura institucional. O ouro, tradicionalmente visto como reserva de valor em momentos de instabilidade, voltou a ser o refúgio preferido de investidores grandes e pequenos.
O pano de fundo de 2025 é turbulento: tensões comerciais entre Estados Unidos e China, ameaça de tarifas de até 100% sobre bens chineses, risco de escalada geopolítica e um governo americano parcialmente paralisado por disputa orçamentária. Esse ambiente elevou a aversão ao risco e tirou brilho de dois abrigos clássicos: o dólar e os títulos do Tesouro americano. Resultado: fluxo para o ouro.
Há também um componente político doméstico nos EUA. A tentativa do presidente Donald Trump de interferir no Federal Reserve e a pressão sobre membros do banco central levantaram dúvidas sobre a independência da autoridade monetária um pilar de confiança global no dólar e nos Treasuries. Analistas de grandes bancos, como o Goldman Sachs, alertam que, se o mercado começar a enxergar risco de ingerência política na política monetária americana, investidores institucionais podem buscar proteção no ouro e reduzir exposição ao dólar. Esse movimento, por si só, teria potencial de empurrar o metal a níveis entre US$ 4.500 e US$ 5.000 por onça.
Quando a moeda de reserva do planeta passa a ser discutida, o ouro costuma agradecer.
Juros para baixo, ouro para cima
O segundo motor da alta é financeiro, não emocional.
O Federal Reserve já iniciou um processo de afrouxamento monetário e o mercado precifica novos cortes de juros ainda este ano, com expectativa de reduções adicionais nos próximos meses. Juros mais baixos nos EUA derrubam o rendimento real dos Treasuries e, portanto, reduzem o “custo de oportunidade” de carregar ouro que não paga cupom, dividendo ou aluguel.
Traduzindo: se o dinheiro parado rende menos, carregar ouro deixa de ser um “luxo caro” e vira alternativa competitiva.
Esse fator técnico explica por que o rali do ouro acelera sempre que surge algum sinal de corte mais agressivo de juros pelo Fed. Foi assim no fim dos anos 1970, quando a combinação de estresse geopolítico e inflação elevada empurrou o ouro a sucessivos recordes. E está sendo assim agora: o metal já registrou mais de 40 novas máximas históricas ao longo de 2025.
Bancos centrais comprando ouro como se fosse 1979
Há um terceiro elemento que diferencia este ciclo dos anteriores: desta vez, não é só o investidor pessoa física correndo para comprar moeda de volta em forma de barra. São os governos.
Nos últimos dois anos, bancos centrais ao redor do mundo passaram a comprar ouro em ritmo historicamente elevado. Em 2024, as compras oficiais superaram 1.000 toneladas — algo não visto em décadas. Só no primeiro trimestre de 2025, mais de 240 toneladas foram adicionadas às reservas oficialmente reportadas.
Esse movimento tem duas leituras:
Uma leitura “técnica”: diversificação de reserva. Países reduzem a dependência exclusiva do dólar e dos títulos do Tesouro americano.
Uma leitura “política”: desde que os EUA congelaram reservas internacionais da Rússia após a invasão da Ucrânia, muitos bancos centrais passaram a tratar o ouro como ativo “sem risco de confisco”. Diferentemente de um título do Tesouro americano, guardado em sistema financeiro sob jurisdição dos EUA, a barra física no cofre do banco central é, literalmente, soberana.
Esse é talvez o ponto mais estrutural desta alta. Não é só medo conjuntural de recessão. É redesenho de poder monetário.
Hoje, o ouro já representa algo próximo a 18% das reservas globais em alguns levantamentos, um salto em relação à metade da década passada. A China, por exemplo, informou ao mercado que ampliou suas reservas por mais de um ano seguido. Países como Polônia, Turquia, Cazaquistão e até Japão que não fazia compras relevantes havia meio século entraram na fila.
Quando quem imprime moeda começa a comprar ouro, o mercado presta atenção.
O fantasma do padrão-ouro: ele voltou?
Não, o mundo não caminha de volta formalmente ao padrão-ouro clássico aquele sistema em que cada unidade de moeda nacional era conversível em uma quantidade fixa de ouro, como vigorou até Bretton Woods e terminou nos anos 1970, quando os EUA abandonaram a conversibilidade do dólar em ouro.
Mas alguns paralelos incomodam.
Nos anos 1970, a quebra da âncora dólar-ouro coincidiu com inflação alta, choque de petróleo e dúvidas sobre a capacidade fiscal dos EUA. O ouro disparou. Hoje, vemos um enredo com rimas semelhantes:
1- Pressões inflacionárias vindas de choques externos (tarifas comerciais, desglobalização, energia);
2- Endividamento público elevado nas principais economias desenvolvidas;
3- Sinais de enfraquecimento institucional em bancos centrais que, em tese, deveriam ser tecnicamente independentes.
A diferença é que, agora, a busca por ouro não é para “lastrear” moeda diretamente, mas para blindar soberania e negociar poder. É um ouro mais geopolítico do que monetário.
Em outras palavras: não há um retorno ao padrão-ouro formal, mas há um retorno ao ouro como padrão de confiança entre Estados e governos.
O papel dos governos centrais hoje
Os governos e, em especial, seus bancos centrais estão, de novo, no centro da história.
Tradicionalmente, o preço do ouro oscilava mais em função de ciclos de mercado: medo sobe, ouro sobe; apetite a risco volta, ouro cai. Em 2025, esse roteiro se ampliou. Agora, os bancos centrais são “compradores de última instância”.
Quando Polônia, China, Turquia, Cazaquistão, entre outros, acumulam metal físico e sinalizam que pretendem continuar comprando, eles colocam um piso de demanda no mercado.
Além disso, países emergentes e também desenvolvidos passaram a enxergar ouro como ferramenta de negociação em um mundo mais fragmentado: tarifas unilaterais, episódios de congelamento de reservas, sanções financeiras e crises diplomáticas. Esse ambiente reduz a confiança na neutralidade do dólar como moeda internacional e reforça a tese do ouro como ativo “politicamente neutro”.
Na prática, governos estão ajudando a empurrar o ouro para cima ao mesmo tempo em que justificam essa alta. É um círculo que se autoalimenta.
Faz sentido investir em ouro agora?
Aqui entram os prós e os contras e eles não são triviais.
Os argumentos a favor
Proteção sistêmica. Ouro historicamente se valoriza em momentos de estresse político, quebra de confiança institucional e fragilidade cambial. Hoje temos os três: guerra comercial crescente, ruído entre presidentes e bancos centrais, e dúvidas sobre a capacidade fiscal de governos muito endividados.
Diversificação. Fundos e estrategistas já discutem a ideia de um portfólio 60/20/20 (ações / renda fixa / ouro), em vez do tradicional 60/40 (ações / renda fixa). O raciocínio: títulos públicos já não oferecem, sozinhos, a mesma proteção de antes.
Demanda estrutural. Enquanto bancos centrais continuarem comprando, há um suporte de longo prazo para o preço.
Os argumentos contra
Preço esticado. O ouro já subiu mais de 50% no ano e mais de 80% em dois anos, batendo US$ 4.000 por onça em tempo recorde. Só entre US$ 3.500 e US$ 4.000 a alta levou pouco mais de um mês. Esse tipo de movimento embute risco de correção (queda) brusca.
Ativo sem rendimento. Ouro não paga juros, dividendos nem aluguel. Se o Fed desacelerar o ritmo de corte de juros ou se a inflação global ceder mais rápido que o previsto, o apelo do metal diminui e o investidor que entrou no topo pode ficar preso num ativo parado.
Dependência de medo. Boa parte da narrativa pró-ouro hoje está ancorada em cenários de conflito comercial e fragilidade institucional. Se houver distensão entre EUA e China (por exemplo, após uma reunião entre Donald Trump e Xi Jinping para evitar novas tarifas de 100%), parte desse “prêmio de pânico” pode evaporar.
Minha leitura
O ouro hoje não é apenas uma proteção contra inflação. Ele virou, de novo, um voto de desconfiança. Desconfiança no dólar como ativo neutro. Desconfiança na política fiscal das grandes economias. Desconfiança até na independência dos bancos centrais.
Para o investidor sofisticado, isso não precisa significar “all in” em metal precioso. Mas justifica, sim, discutir uma fatia tática pequena, diversificadora, que funcione como seguro de portfólio.
Para quem entra agora, depois dessa disparada, o maior risco não é o ouro cair um pouco. É entrar acreditando que ouro sobe para sempre.
Seguro é bom. Comprar seguro pagando qualquer preço, não.
Mateus H. Passero
Assessor de investimentos
4traderinvest.com.br
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