Tarifaço dos Estados Unidos afeta indústria brasileira, mas impacto na balança comercial deve ser limitado

21 de julho de 2026
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As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros devem causar impactos pontuais na economia do Brasil, especialmente em setores da indústria, mas não devem alterar significativamente o saldo da balança comercial do país. A avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil.

Embora as medidas adotadas pelo governo do presidente Donald Trump atinjam apenas cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano, setores como máquinas, aço, alumínio, calçados, automóveis e produtos de madeira podem enfrentar perda de competitividade, já que dependem das vendas para os Estados Unidos e possuem maior dificuldade para conquistar novos mercados.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que, no primeiro semestre de 2026, o comércio entre Brasil e Estados Unidos movimentou US$ 36,4 bilhões, uma queda de 12,8% em comparação com o mesmo período do ano anterior. As exportações brasileiras somaram US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos chegaram a US$ 19 bilhões, resultando em um déficit comercial de US$ 1,5 bilhão para o Brasil.

Segundo a economista Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), o impacto das tarifas sobre a balança comercial brasileira tende a ser pequeno. Isso ocorre porque os Estados Unidos representam atualmente cerca de 9,4% das exportações nacionais, enquanto a Ásia, especialmente a China, é o principal destino dos produtos brasileiros.

Apesar disso, a especialista destaca que empresas ligadas aos setores de máquinas, equipamentos, madeira e calçados poderão enfrentar dificuldades, já que dependem mais diretamente do mercado norte-americano.

O presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, também acredita que o superávit comercial brasileiro não será fortemente afetado. Segundo ele, as commodities, principais responsáveis pelo saldo positivo da balança, ficaram de fora das sobretaxas. Produtos como soja, café, carne bovina, petróleo e suco de laranja continuam isentos das novas tarifas.

Para Castro, o maior prejuízo recairá sobre a indústria de transformação, responsável pela produção de bens manufaturados e pela geração de empregos. Ele afirma que o aumento das tarifas pode favorecer concorrentes internacionais, que poderão ocupar o espaço antes destinado aos produtos brasileiros no mercado dos Estados Unidos.

Os especialistas também avaliam que as novas medidas possuem forte motivação política. Na opinião de Lia Valls, a ampliação das tarifas deixou de seguir apenas critérios econômicos e passou a considerar questões como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação das plataformas digitais, o sistema Pix e políticas ambientais.

Enquanto isso, o governo brasileiro estuda utilizar a Lei da Reciprocidade Econômica para responder às medidas norte-americanas. No entanto, especialistas consideram que uma retaliação teria pouca eficácia, já que o Brasil possui capacidade limitada para impor perdas significativas aos Estados Unidos. A recomendação é buscar uma solução por meio de negociações e recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC).

As tarifas foram aplicadas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 dos Estados Unidos. Embora a alíquota padrão seja de 25%, alguns produtos passaram a pagar até 50%, devido ao acúmulo de sobretaxas anteriores. Entre os mais afetados estão aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos, calçados e produtos de madeira, enquanto aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja permaneceram fora da lista de sobretaxas.

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