Enquanto o frio castiga do lado de fora, aqui dentro o gelo é outro. O da política. Esse ambiente onde a mulher ainda precisa provar todos os dias que merece estar onde está.
Já reparou como os rótulos mudam de acordo com o gênero? Quando um homem é destemido, é corajoso. Quando uma mulher é destemida, parece que está “fora de controle”, “muito mandona”, “precisando de alguém que a coloque no eixo”. Se ele é calado e observa antes de opinar, é ponderado. Se ela faz o mesmo, é falsa. Dissimulada. Deve-se ter cuidado com essa cobra. Quando ele se posiciona com firmeza, é um líder nato. Quando ela se posiciona, “tem personalidade forte” — e esse adjetivo sempre vem acompanhado de um olhar atravessado já na verdade o que querem dizer com isso é que ela é difícil de engolir.
Se ele trabalha incansavelmente, é um visionário. Um exemplo. Quando ela faz o mesmo, logo surgem comentários sobre como está deixando a família em segundo plano, é uma desalmada. Como se não fosse possível. E quando uma mulher alcança uma posição de destaque, não raro aparecem insinuações baixas, como se competência viesse sempre acompanhada de segundas intenções com as quais nós deveríamos nos submeter. Como se não bastassem anos de estudo, dedicação e esforço.
É exaustivo. É injusto. E, sim, muitas vezes, esses comentários vêm de outras mulheres. Mulheres que foram ensinadas a desconfiar umas das outras, a competir em vez de somar. Mas a verdade é que já passamos da hora de mudar o clima — dentro e fora das repartições, gabinetes, palanques e plenários. É que chega uma hora que cansa. Cansa de tanto tentar provar nosso valor e no final das contas isso não fazer a menor diferença “só” porque somos mulheres.
A gente não quer cota. Nem na política, nem na faculdade, nem em lugar nenhum. Precisamos apenas da mesma oportunidade sem demagogia e sem hipocrisia.
Ouvi certa vez que mulher tem que votar em mulher e eu discordo com veemência. Mulher tem que votar no candidato que ela acha mais preparado, mesmo que ele seja um homem. Não se trata de querer empurrar as mulheres a todo custo em qualquer lugar, mas sim de lutarmos para que as mulheres tenham as mesmas condições de se tornarem uma opção tão boa que não precisem do argumento “mulher vota em mulher”.
Até a próxima!
Léia Alberti
Comunicadora
@leiaalberti
@agencia_bora


