Benzimento Patrimônio Imaterial do Município de Porto União – SC

14 de julho de 2025
8 mins read

“Bendiga ao Senhor a minha alma”. Afinal, quanto mais abençoamos, mais abençoados seremos. Ritual ancestral de cura pelo bendizer; Benzer é o ato de abençoar alguém ou algo, com intenção de afastar o mal em todas as suas formas.
Os benzedores também são chamados de rezadores, pois dentro do processo magístico de benzimento, o acompanhamento de rezas se faz presente.
Ritos e rezas se misturam nas mais diversas formas de manifestação da espiritualidade. Nosso intuito foi despertar para o dom de abençoar e curar e manter viva essa tradição tão presente em nossa região. E me arrisco a perguntar, quem nunca precisou de um benzimento?
Benzer consiste no uso do dom e fé em prol da saúde e bem estar das pessoas, um costume antigo. A arte da benzedura une a fé, as curas realizadas e a cultura popular. Benzer vem do latim bene dicere, que significa “BEM DIZER’.
Desde 13 de Novembro de 2021 o Templo de Ser – Coletivo do Bem Viver criado por Scharlene Amarante, atua em União da Vitória – PR e Porto União – SC e vem realizando o encontro “Roda de Conversa – Benzimentos”, onde as benzedeiras e benzedeiros destes saberes populares compartilham seu conhecimento e praticam seu ofício. A Roda de Benzimentos é a forma prática e de identidade territorial para manter esta tradição viva, pois reconhecemos que há muitos
Benzedores em nossa região. O coletivo já representou todas as pessoas que praticam esta arte e o nossos municípios, em evento na Uniarp – Caçador – SC e também no VIII Simpósio Internacional do Contestado – Religiosidades de Matriz Africana e Indígena nos Movimentos Populares no Brasil e na América Latina em Florianópolis – SC.
Recentemente Templo de Ser – o coletivo do Bem Viver recebeu o prêmio pelo desenvolvimento das atividades e passou a ser considerada como “Ponto de Cultura” do Município de União da Vitória – PR. Scharlene diz que “não basta referenciar o Monge João Maria apenas através de pinturas, esculturas ou fazer artístico, se faz necessário reconhecer o valor destes benzedores (mulheres e homens), pois eles são a representação e identidade viva, ou seja, são os mantenedores dessa rica prática cultural e de saúde e ainda frisa, na história do nosso município é inegável a presença desta prática, o Bendizer. Temos pinturas locais e referenciamos o Monge João Maria, mas afinal quem era Ele, senão um benzedor-rezador?!!”.

A HISTÓRIA QUE O TEMPO NÃO APAGA
Em 1910, a linha norte-sul foi concluída, unindo Porto União da Vitória (PR) a Marcelino Ramos (RS) com mais de 300 km de linha férrea. Nossa região, em sua identidade cultural, faz parte de tudo o que foi a Guerra do Contestado, também reconhecida como uma “guerra santa” pois muitos redutos de Fé foram estabelecidos – que tiveram como protagonista muitas mulheres virgens, rezadeiras, benzedeiras, parteiras. Qualquer pessoa que passe pela região do Contestado com certeza vai ouvir falar do Monge João Maria que ensinavam orações e falava de fé e muita mulheres fortes defensoras de suas rezas. As mulheres do Contestado, em seu coletivo, representam a força deste local e sua tradição. Somos uma mistura dos povos originários, com afro descendentes, com ciganos-tropeiros e os imigrantes que foram chegando na nossa região. O povoamento da nossa região se deu pela mistura étnica que reflete também nas práticas dos benzimentos e por isso normalmente as benzedeiras são vistas como uma figura à parte de uma religião e sim como uma figura de fé, guardiã de sabedoria ancestral.
E hoje somos esse tudo junto e misturado que reflete também na prática de Bendizer, algo especial e todo nosso, da nossa região. Umas(uns) rezam na cera, outras (os) cortam o carvão, outras (os) utilizam plantas, há quem costure e todas e todos rezam!!
Os benzimentos são realizados normalmente por mulheres, mas podem ser encontrados homens também que, através de rezas, gestos e rituais, buscam curar enfermidades físicas, emocionais ou espirituais. Existem várias maneiras de realizar uma benzedura, pois cada um possui o seu jeito, o uso de suas ferramentas, sejam plantas, velas, água, cera ou outra forma. Quem nunca em nosso município pensou “preciso me benzer” ou ouviu “benze que passa”; precisou, lá vem elas, com suas orações, suas garrafadas, suas medidas e suas costuras.

A JUSTIFICATIVA (que foi para validação da LEI)
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) define como patrimônio imaterial “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos os indivíduos, reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.”. Em 2003, a UNESCO adotou a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. O Brasil ratificou a convenção em 2006. Para atender às determinações legais e criar instrumentos adequados ao reconhecimento e à preservação desses bens imateriais, o Iphan coordenou os estudos que resultaram na edição do Decreto nº. 3.551, de 4 de agosto de 2000 – que instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial – e consolidou o Inventário Nacional de Referências Culturais. IPHAN denomina de «ofício”, “registro”, “referência cultural” e “inventário”, as rezadeiras-benzedeiras tomando como viés as políticas de “patrimonialização”.

NA SAÚDE
Esse conhecimento outrora apenas empírico, hoje já é estudado e em muitos países reconhecido com medicinas tradicionais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as medicinas tradicionais, complementares e integrativas (MTCI):
– se refere à um amplo conjunto de práticas de atenção à saúde baseado em teorias e experiências de diferentes culturas utilizadas para promoção da saúde, prevenção e recuperação, levando em consideração o ser integral em todas as suas dimensões.
Na Estratégia Global da OMS para a Medicina Tradicional (2025-2034)” [WHO Global Strategy for Traditional Medicine (2025-2034), os principais temas abordados na estratégia incluem o fortalecimento da pesquisa, a garantia da segurança, qualidade e eficácia das MTCI (Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas), além da promoção da integração aos sistemas nacionais de saúde de maneira eficaz e respeitosa com as diversas culturas e tradições.
Além de oficio cultural, ainda no contexto do reconhecimento devido, é essencial destacar a afinidade entre as práticas das Benzedeiras e as chamadas Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), devidamente reconhecidas pelo SUS. Essa similaridade ressalta a importância de valorizar e integrar abordagens tradicionais à saúde, evidenciando a potencial complementaridade dessas práticas no contexto contemporâneo. Neste contexto, podemos ressaltar:
● Imposição de mãos;
● Medicina antroposófica/antroposofia aplicada à saúde;
● Meditação;
● Naturopatia;
● Plantas medicinais – fitoterapia;
● Terapia Comunitária Integrativa.

EM SANTA CATARINA
As benzedeiras já são integrantes do Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Santa Catarina pelo projeto de Lei 510/2023, de autoria do Padre Pedro Baldissera, aprovado pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) em 27 de novembro de 2024.

Município de Porto União SC pelo advento da Lei Ordinária 4528/2018:
“Art. 1º Constituem Patrimônio Histórico, Artístico e Natural do Município de Porto União, os Bens Materiais Móveis e Imóveis e os Bens Imateriais referentes aos costumes e o saber fazer de seu povo, existente no seu território, cuja conservação seja de interesse público quer por seu valor cultural a qualquer título.
Em 14/03/2025 foi protocolado a solicitação junto a Câmara de vereadores de Porto União União -SC e em seguida com vereadores Sandro Calicoski e Varderlei Werle, o qual este, ficou no acompanhamento de todo o processo. Em apenas 3 meses temos a Lei Lei 5.087 que declara integrante do Patrimônio Histórico Cultural Imaterial do Município de Porto União as Benzedeiras e Benzedeiros.
§ 1º Para os fins do disposto nesta Lei, consideram-se:
I – Ofício tradicional de saúde popular e cura religiosa: a ocupação especializada baseada na utilização de saberes, conhecimentos e práticas tradicionais voltadas à promoção da saúde popular;
II – Detentor de ofício tradicional de saúde popular e cura religiosa: a pessoa que se auto identifica detentor de ofício tradicional de saúde popular e cura religiosa e que realiza tratamentos de saúde com uso de conhecimentos e práticas tradicionais repassadas de geração a geração.
Ter a Lei 5.087 é um ato simbólico, mas também abre portas e janelas para os próximos passos. Agora o próximo passo é integrar o Livro de Saberes conforme disposto na Lei anterior (Lei 4528/2018). Outras ações são previstas, por exemplo, as benzedeiras que passam pela roda, já recebem um certificado, mas a intenção é ampliar as ações, identificando-as e fazendo registros, e ainda, ações de transferências de saber e como auxiliar de forma mais efetiva.

“As mulheres (e alguns homens) vem mantendo este ato de Fé, este ofício e quando vamos na casa de uma benzedeira, normalmente o postal antigo do Monge está lá. O padrinho, como o chamam, conta Scharlene, também conhecida como Ninfa do Amor, uma figura que busca no resgate das práticas tradicionais e ancestrais a harmonia e união dos planos material – espiritual de forma consciente: “olhando e resgatando as práticas ancestrais, percebemos o quão singelas e puras elas são, está tudo na natureza, e aindo hoje com estudo científicos comprovando então ressignificados a desinformação, permanece apenas a Paz, a Fé e o Amor”.

As mulheres (e alguns homens) vem mantendo este ato de Fé, este ofício e quando vamos na casa de
 uma benzedeira, normalmente o postal antigo do 
Mongeestá lá. O padrinho, como o chamam,
conta Scharlene, também conhecida como 
Ninfa do Amor, uma figura que busca no resgate 
das práticas tradicionais e ancestrais 
a harmonia e união dos planos
 material - espiritual de forma consciente:
“olhando e resgatando as práticas ancestrais, 
percebemos o quão singelas e puras elas são, 
está tudo na natureza, e aindo hoje com estudo 
científicos comprovando então ressignificados 
a desinformação, permanece apenas 
a Paz, a Fé e o Amor”.
Scharlene Amarante criadora do Templo de Ser que abriga o coletivo das Benzedeiras

 

“muitos pais falam que a criança tendo uma dorzinha ainda levam para a benzedeira, as pessoas ainda fazem esse caminhodo benzimento.
E como benzedeira, fala que “mesmo na era digital, muitas das situações, a pessoas recorrem aos benzimentos e olhar para a benzedeiras, uma coisa que parece tão antiga, ele é tão atual que em 2025 a gente vê as pessoas a procura de benzedeiras e tem relatos da procura a noite, de quando uma criança ou alguém passa mal, é olhar para dentro da gente, não deixar a nossa  história se encerrar e acreditar que independente seja qual seja a sua religião, a Fé ainda move montanhas”.

Adriane Tomkiewcz , coordenadora pedagógica do Templo de Ser, professora e também benzedeira

 

“O reconhecimento da vocação das benzedeiras em nosso município é de extrema importância, pois além de valorizar a cultura local, também  proporciona saúde nosaspectos físicos, emocionais, psicológicos e espirituais para os que têm fé.
É importante que haja respeito por todas as religiões, e valorizar uma prática tão antiga que é o benzimento, demonstra respeito pela fé e pela crença de boa parte da população”.

Lindarci Miranda , benzedeira madrinha da Roda de Benzimentos

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

Publicação anterior

NOTA À IMPRENSA

Próxima publicação

PREFEITURA DE PORTO UNIÃO ABRE INSCRIÇÕES PARA CENTRAL DE VAGAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL EM AGOSTO

Última publicação de Porto União e União da Vitória

Vá para oTopo