Escalada geopolítica eleva incerteza e pressiona ativos brasileiros
A intensificação do conflito no Oriente Médio passou a influenciar diretamente o comportamento dos mercados brasileiros. A aversão global ao risco provocou reprecificação relevante nas expectativas de juros, no câmbio e em diversos ativos financeiros.
Antes da escalada do conflito envolvendo o Irã, o mercado atribuía cerca de 80% de probabilidade a um corte de 0,50 ponto percentual na taxa Selic na próxima reunião do Banco Central. Com a disparada do petróleo e o risco de pressão inflacionária adicional, essa probabilidade recuou drasticamente para 10%.
Em contrapartida, aumentaram as chances de um movimento mais moderado ou até mesmo de manutenção da taxa básica. A hipótese de redução de 0,25 ponto percentual avançou de 14% para 49%, enquanto o cenário de estabilidade da Selic passou de 2% para 39%.
O câmbio também refletiu o ambiente de maior incerteza internacional. O dólar voltou ao patamar de R$ 5,30, após uma semana marcada por forte volatilidade.
Inflação de fevereiro surpreende e acende alerta
Os dados de inflação divulgados recentemente também trouxeram sinais que exigem atenção. O IPCA de fevereiro registrou alta de 0,70%, superando as expectativas do mercado. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 3,81%.
Embora o resultado ainda esteja dentro da meta, a composição do índice foi considerada menos favorável. A média dos núcleos de inflação, indicador que exclui itens mais voláteis, avançou 0,62% no mês. Já a média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada atingiu 4,4%, próxima ao limite superior da banda de tolerância da meta inflacionária.
Em termos práticos, o mês mostrou inflação de serviços ainda elevada e perda de fôlego na desaceleração dos bens industrializados. Para a política monetária, o recado é de cautela. A projeção para o IPCA de 2026 permanece em 3,8%, mas o aumento do preço do petróleo adiciona risco de revisão para cima.
Governo tenta conter impacto do diesel
Diante da alta internacional do petróleo, o governo anunciou medidas para reduzir o impacto do diesel nas bombas. Entre as iniciativas está um decreto que zera as alíquotas de PIS/Cofins sobre o combustível, além de uma Medida Provisória que prevê subvenção a produtores e importadores.
Segundo estimativas do governo, o pacote deve gerar uma redução aproximada de R$ 0,64 por litro de diesel para o consumidor final.
Para compensar parte da perda de arrecadação, o governo pretende instituir um imposto temporário de 12% sobre exportações de petróleo.
Ainda assim, as contas não fecham totalmente. As estimativas indicam custo fiscal de R$ 15,9 bilhões, enquanto a nova tributação sobre exportações deve gerar R$ 12,9 bilhões em receitas, o que implica impacto fiscal líquido negativo.
Economia mostra reação no início do ano
Apesar das incertezas externas, os indicadores domésticos de atividade apontaram recuperação no início do ano.
As vendas do varejo ampliado cresceram 0,9% em janeiro, superando as expectativas do mercado e revertendo a queda de 1,0% registrada no mês anterior.
No setor de serviços, a receita real avançou 0,3%, também acima das projeções.
Após a desaceleração observada na segunda metade de 2025, principalmente devido à política monetária mais restritiva, a expectativa é de recuperação gradual da economia ao longo do primeiro semestre.
Alguns fatores ajudam a sustentar esse cenário. O mercado de trabalho segue aquecido, com desemprego em níveis historicamente baixos e crescimento consistente da renda real. Além disso, medidas de estímulo, incluindo expansão do crédito e impulsos de renda, devem adicionar cerca de 1,0 ponto percentual ao crescimento do PIB neste ano.
A projeção atual é de expansão econômica de 2,0% em 2026.
Conflito no Oriente Médio mantém petróleo elevado
No cenário internacional, o principal foco de atenção continua sendo o conflito no Oriente Médio. A escalada das tensões envolvendo o Irã manteve os mercados globais sob pressão ao longo da semana.
O petróleo passou por forte volatilidade e atualmente gira em torno de US$ 100 por barril. Para conter os efeitos da disparada nos preços, a Agência Internacional de Energia anunciou a liberação de 400 milhões de barris das reservas estratégicas, a maior operação desse tipo já realizada.
A medida busca reduzir os impactos do quase fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do fluxo global de petróleo.
Mesmo assim, a situação permanece instável, com o Irã intensificando ataques contra navios na região.
O ambiente de incerteza elevou a demanda por ativos considerados seguros e contribuiu para o fortalecimento do dólar, movimento que tende a pressionar moedas de países emergentes.
Inflação americana segue resistente
Nos Estados Unidos, os dados econômicos reforçam um cenário de atividade moderada e inflação persistente.
A segunda estimativa para o crescimento do PIB do quarto trimestre de 2025 foi revisada de 1,4% para 0,7%, refletindo principalmente os efeitos da paralisação do governo no final do ano, a mais longa da história do país.
Ao mesmo tempo, a inflação continua acima da meta. O deflator do PCE, indicador preferido do Federal Reserve, registrou alta de 2,8% em 12 meses até janeiro, enquanto o núcleo do índice atingiu 3,1%.
Com a inflação estabilizada acima da meta de 2% e diante da recente alta do petróleo, a tendência é de maior cautela por parte do banco central americano. A expectativa predominante no mercado é de manutenção da taxa de juros por um período prolongado, até que haja sinais mais claros de desaceleração dos preços.
FONTE:https://conteudos.xpi.com.br/economia/economia-em-destaque-alta-do-petroleo-eleva-incertezas-sobre-inflacao-e-juros/
Mateus H. Passero
Assessor de investimentos
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